24 maio 2009

Suspirando

Suspiro, dizem, é nome de flor, nome de loja, sobrenome de papagaio, nome de cidade, nome de ponte em Veneza, nome de brinquedo, de marcação musical e de uma pequena abertura que se faz em um recepiente pressionado por algum conteúdo interno que precisa escapar aos poucos, pra não fazer o tal recepiente explodir.
Suspiro também é o nome daquele doce super-doce feito com clara de ovo, raspas de limão, açúcar, paciência, um fogo brando e muita sorte ou competência pra acertar o ponto. Todo branquinho e grande, ele é duro de morder, mas desmancha na boca como mágica. Colocam ele na merengata de morango, no sorvete, no bolo ou na torta de limão, pra acentuar o sabor desses pratos. É tão leve que você poderia jurar que não comeu… Não fosse o gosto forte e melado que fica na boca e gruda na garganta.
Suspiro também é aquilo que o doente faz no hospital um pouco antes de morrer, na última tentativa de respirar mais um pouquinho. Ou o que esse mesmo doente fez tantas vezes antes quando não aguentava mais de dor. Suspiro é o que aquela moça faz quando debruça na janela e fica com o olhar perdido no horizonte, com aqueles olhos de quem não está vendo nada, ou olhando através das coisas. Provavelmente porque ela sente que está quase morrendo de saudade de alguém.
Suspiro é o que a minha mãe - mulher forte, decidida e prática - faz antes de dormir. Desde pequena que ouço ela suspirar à noite, muitas vezes, muito alto, tão alto que chegava a me acordar. Antes me perguntava por que ela suspirava tanto. Hoje eu sei que é de cansaço… E de solidão. Às vezes ela suspira de dia também, quando está fazendo algo que a irrita ou cansa muito; geralmente, os suspiros diurnos da minha mãe são seguidos de um “ai” ou um som bem profundo, que parece que vem do fundo da alma. Mas nenhum é mais profundo do que aqueles que ouço vir do quarto dela quando ela se tranca lá pra ouvir velhas canções de amor, suspiros que ela deixa escapar desde que ficou viúva e desistiu do amor. Talvez seja saudade do meu pai, como a moça da janela deve ter saudade de alguém. Talvez seja só um suspiro triste, de quem acha que não pode mais suspirar de alegria de novo.
Suspiro é o que eu deixo fluir baixinho quando estou de saco muito cheio da minha chefa, suspiro de raiva e insatisfação. Ou quando me pego entediada, sem muitas esperanças que algo legal vá acontecer. Também é aquele som que sai de mim quando abraço alguém muito querido, que não vejo ou não abraço faz tempo, e sinto o perfume daquela pessoa causando uma verdadeira descarga de felicidade nas minhas células nervosas, seja essa pessoa um familiar, um amigo ou um querido muito querido mesmo.
gambá
Suspiro é aquela expressão de alívio que vem quando você espirra, goza, ou consegue ir ao banheiro quando está com muita vontade de fazer xixi. Tem gente que suspira porque está feliz, porque está triste, porque sente saudade, porque está insatisfeito, porque gosta de contemplar a vida, ou porque quer demonstrar o quanto admira algo muito bonito e hipnotizante como uma lua cheia de verão ou uma flor colorida e delicada.

O suspiro é aquele pedaço que estava bem no fundo, tão fundo, que você precisa respirar forte pra ir pegar lá dentro de você e trazer pra fora, porque senão aquilo começa a te sufocar por dentro. Suspiro é sentimento e sensação transformados em reação biológica. Suspiro é expressão pura e concreta de que algo acontece dentro de você. Quando você suspira, puxa o ar com vontade e depois solta com mais vontade ainda, como se aquele vento entrasse dentro de você pra fazer uma faxina em cada partícula dos seus pulmões, deixando tudo limpo depois. Nem sempre é bom suspirar. Mas é sempre necessário. E não há quem não suspire vez ou outra.
E apesar de existirem muitos tipos de suspiro, de muitos jeitos, para expressar muitas coisas… Eu posso afirmar com a certeza mais absoluta desse mundo que nenhum suspiro é mais gostoso, mais desejado nem mais digno de ser chamado de suspiro do que um suspiro de paixão. Aquele mesmo, que a gente faz quando olha no olho de uma pessoa e aquele olhar parece cair direto dentro do seu. Aquele que a gente deixa sair apressado quando a pele é tocada de leve por aquelas mãos que parecem desejar tanto o seu corpo, ou o que vem bem longo e lento no meio de um beijo quente, molhado e demorado. Suspiro apaixonado é aquele que vem antes de dormir, quando você tem certeza de que um certo alguém vai aparecer no seu sonho logo mais, ou aquele que chega quando você acorda sorrindo, e já pensa de novo naquela pessoa. Suspiro apaixonado é aquele que você dá depois de atender ansiosa o telefone e vê que é aquela pessoa mesmo que você estava esperando, porque é tão bom ouvir aquela voz e ela foi tão desejada nos seus períodos tristes de solidão. Suspiro apaixonado é aquele que vem quando você finalmente descansa nos braços de alguém especial, sentindo uma paz imensa - paz que logo é roubada por outros suspiros, porque não há paixão que rime com paz. Suspiro apaixonado vem na cola daquela música, das mãos dadas, do carinho e das frescurites que a gente acha tão bonitinha só porque é aquela pessoa que fez, e por aí vai. Quero ver quem me prova que existe suspiro melhor que suspiro de paixão… Existe não.

Ai.. ai..

Um comentário:

Ilária Oliveira disse...

Amei o texto. Combina perfeitamente com meu blog "Suspiro".
Vou fazer uma reedição e postar também.

Parabéns!